Joseph Diescho “Quando os líderes africanos
pretendem marchar em direcção ao futuro do continente ao lado dos seus super -
senhores (ex-colonizadores), eles estão a assegurar que a África continue um
parceiro júnior na corrida, sem um futuro dignificante para si próprio”
A 25 de Maio de 1963 foi criada a Organização da
União Africana (OUA), que foi substituída pela União Africana no dia 9 de Julho
de 2002 na Cimeira de Chefes de Estado realizada na cidade de Durban (África do
Sul), com o intuito de se encontrar um novo nível de governação Pan Africano
para enfrentar os desafios de desenvolvimento de África. No presente mês em que
se assinala mais um “Dia de África”, existe motivos mais que suficientes para
abordar os caminhos sinuosos que tem vindo a trilhar o “continente negro” na
luta incansável da redução da fome.
O continente africano é esculpido, desenhado,
pintado, cantado, exaltado, retratado de acordo com inspirações e interesses de
seus diversos promotores. Tristemente, o “continente negro” hoje é retratado na
imagem de um continente espoliado da sua nata material e humana, esvaziado e
quase sem conteúdo, contrastado com a visão estratégica da União Africana que
ambiciona um continente unido e integrado alicerçado pela integração política,
económica, social e cultural.
Apesar de ser um continente rico em recursos
naturais e humanos, a fome continua sendo uma das grandes barreiras para
melhorar a qualidade de vida dos africanos como almeja a União Africana e os
africanos. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), advertiu
no recente “Relatório de Desenvolvimento Humano de Africa 2012: Para um futuro
de segurança alimentar” (O primeiro do PNUD sobre o desenvolvimento humano em
Africa), sobre os perigos que representam a fome na Africa Sub Sahariana, onde
mais de 200 milhões de pessoas sofrem os efeitos do flagelo.
O relatório trás em si, dados que perturbam,
dados que incomodam, pois revela que 25% dos 856 milhões de habitantes Africa
Sub Sahariana esta sob o impacto da desnutrição centradas nas pessoas e a
segurança alimentar. De acordo com estimativas recentes, constata-se que a desnutrição tem
aumentado de forma consistente na África sub sahariana desde 1992 de 167
milhões de pessoas para 194 milhões em 1997 e 205 milhões em 2002, e
actualmente 214 milhões. Reconhecidos
académicos provenientes de países do norte e países do sul, com alguma
insistência questionam o porquê da fome em Africa, se a produção de alimentos
multiplicou por três desde os anos sessenta, enquanto a população mundial
apenas duplicou no mesmo período em questão. De maneira explícita as evidências
mostram que a fome em Africa tem constituído uns do problema de mais difícil
resolução a nível mundial, no âmbito do desenvolvimento económico.
Desde a independência, parte significativa dos
países da Africa Sub Sahariana não lograram progressos na redução da fome, pois
pouco investiram na promoção da ciência, tecnologia, inovação e geração de
conhecimentos em prol da agricultura, para além de que houve fraco investimento
em infra estruturas socio económicas rurais, num contexto em que os mercados
continuam fragmentados, personalizados e inseguros. Cientes desse baixo
investimento público no sector, os Chefes de Estado e do Governo assumiram o
compromisso de Maputo em Junho de 2003 de destinar pelo menos 10% de seus
orçamentos nacionais para o desenvolvimento agrícola e rural.
África deve superar com astúcia o problema da fome,
sabendo evitar os percalços que tem encontro nos sinuosos caminhos em busca de
uma solução sustentável da redução da fome, e que seja com uma politica efectiva
e pragmática para a erradicação da fome em Africa, focalizada nos obstáculos e
constrangimentos que se tem verificado ate hoje. Fortalecer a agricultura em
Africa torna-se fundamental para atacar as principais causas da fome,
complementada com diretrizes políticas coerentes e alta capacidade
institucional para a implementação de políticas públicas.
Das respostas ate hoje encontradas para redução
da fome no continente africano, há que destacar diversos compromissos que foram
firmados no nível continental desde os anos 80 no Plano Lagos de acção para o
Desenvolvimento Econômico da África e no começo dos anos 90 na iniciativa
Comunidade Econômica Africana. Alguns dos mais recentes incluem a Declaração
Maputo sobre Segurança Alimentar (2003); a Declaração Sirte sobre Agricultura e
Água (2004); a aprovação de NEPAD/CAADP (2005) para alcançar taxa de
crescimento anual de 6 % na agricultura, e para manter com o passar do tempo; a
Declaração Abuja sobre Fertilizantes para uma Revolução Verde Africana (2006);
Cúpula de Segurança Alimentar de Abuja (2006); Declaração Sharm El Sheikh sobre
Alta de Preços de Alimentos (2008).
Expectativas e frustrações, prós e contra,
avanços e recuos que poem os africanos sempre perante a hipótese de
materializar um sonho em realidade, pois Africa tem o potencial para ser parte
da solução do problema. Apesar desses todos acordos e compromissos, a
implementação tem sido ineficiente, ou estou a fazer uma avaliação precipitada
em função do curto período temporal decorrido? Caso afirmativo, considero
minhas conclusões como provisórias, pelo que, torna-se imperativo buscar união
e vigor, similar ou superior com o qual o “continente negro” se uniu contra um
inimigo comum - o sistema colonial - para inspirar os africanos nessa luta inadiável
da redução da fome. Apesar de reconhecer a existência dos obstáculos naturais
que nos confrontam, incluindo grandes áreas com climas semi áridos e solos
pobres, degradação do meio ambiente e desastres naturais estamos perante um
imperativo.
Água é um recurso produtivo vital no processo de
produção agrícola. A nível mundial, a agricultura irrigada ocupa actualmente 18
% (275 milhões de hectares) da área total cultivada no planeta (1,5 bilhão de
hectares). Apenas são utilizados 3% dos recursos hídricos do continente
africano e somente 4% das suas terras aráveis são irrigadas, enquanto a Ásia
utiliza 20% do seu potencial em água, para irrigar 38% das suas terras
cultiváveis. Fazer com que haja disponibilidade de água custa caro. Pelo que,
é, pois, indispensável valorizá-la ao máximo. É triste constatar que a produção
alimentar do continente africano depende essencialmente das chuvas do que da
irrigação, apesar de todo o potencial existente.
Qualquer
estratégia de desenvolvimento com enfoque na abordagem produtiva rural tem que
ter também objectivos sociais, devidas as suas interligações com outros
factores, para que responda a um padrão social e económico de produção. A
implementação dos objectivos sociais requer uma definição criteriosa das
intervenções baseadas em análise do contexto, e Africa devido a sua alta incidência
e prevalência do HIV/SIDA continua sofrer os efeitos devastadores do flagelo,
invertendo décadas de desenvolvimento.
Não há solução
única. Muitos desafios precisam ser superados, pelo que urge uma reforma no
sector da agricultura com dimensão continental, que tenha como opções prioritárias
e necessárias, a aceleração da aquisição de tecnologia e investimento em
inovação, investimento no capital humano e físico, promoção das exportações e
aceleração da integração regional, abordagem da desigualdade do género, da
ameaça das alterações climáticas e mobilização de recursos necessários que
resultem em aumento de acesso ao crédito, aos activos e competências. Se não redescobrirmos a capacidade para superar esses desafios,
dificilmente conseguiremos almejar a tão desejada intenção “de combate contra a
fome e a pobreza” que tem como “meta final o aumento da produção e
produtividade agrária de forma competitiva e sustentável”.
Não obstante reconhecer e dar a devida importância ao trabalho que tem
vindo a ser realizado a nível continental, devemos privilegiar uma estratégia
de desenvolvimento que coloque a satisfação das necessidades básicas dos
africanos acima de todas outras preocupações. Os africanos devem explorar e
partilhar primeiramente os recursos ao nível de África antes de serem colocados
no “cesto internacional” para ser explorados por aqueles que já sugaram o
continente no passado recente pelo sistema colonial e escravatura. Se temos conseguido
gerir as nossas independências, construção de nossos aparelhos de estado, e
manutenção de fronteiras impostas pelo sistema colonial, apesar de seu carácter
artificial, porquê continuarmos a trilhar por caminhos sinuosos para a redução
da pobreza no nosso continente? Porquê África? O tempo cá estará para comprovar
nossas virtudes...









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